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  Lendo imagens: um convite instigante

Mirian Celeste Martins

A imagem de uma obra de arte existe em algum local entre percepções: entre aquela que o pintor imaginou e aquela que o pintor pôs na tela; entre aquela que podemos nomear e aquela que os contemporâneos do pintor podiam nomear; entre aquilo que lembramos e aquilo que aprendemos; entre o vocabulário comum, adquirido, de um mundo social, e um vocabulário mais profundo, de símbolos ancestrais e secretos.
Antonio Manguel

Um livro que é um convite. Um livro que abre as portas da percepção e da imaginação, tornando-nos mais sensíveis ao que lemos e vemos, com nossos olhos e com os olhos de outros. Um livro que nos faz mover as páginas para frente e para trás, na busca do que ainda não havíamos visto, embora já tivéssemos percorrido as imagens. É assim Lendo imagens: uma história de amor e ódio (Companhia das Letras, 2001, 358p). O autor é Antonio Manguel, um escritor argentino de 53 anos, naturalizado canadense, que já morou em Israel, Espanha, Itália, França, Inglaterra e Taiti. Se "não explicamos as imagens, explicamos os comentários a respeito das imagens", como diz Michael Baxandall, talvez a sábia magia de Antonio Manguel seja ir além da explicação dos comentários, seus e de tantos outros, sobre as imagens. Volta-se a olhar muitas vezes para as ricas imagens, porque ele nos convoca ao diálogo com elas, perscrutando - com amor e ódio - o que nos dizem, no silêncio. Diz ele que:
"se olhar para uma pintura é equivalente a ler, então é uma forma muito criativa de leitura, uma leitura que devemos não só transformar em palavras, em sons e sentido, mas as imagens, em sentido e histórias. Claro, grande parte deve se furtar às nossas narrativas pelo caráter camaleônico de um quadro e pela natureza protéica de um símbolo. A imagem e o significado se refletem numa galeria de espelhos pela qual, assim como por corredores cobertos de quadros, decidimos passear, sempre sabendo que não há um fim para nossa busca - mesmo se temos um objetivo em mente"- (p.172).
As múltiplas possibilidades de leitura, desveladas pelo caráter camaleônico e pela natureza protéica dos símbolos são desveladas pela leitura das imagens vistas como narrativa, ausência, enigma, testemunho, compreensão, pesadelo, reflexo, violência, subversão, filosofia , memória e teatro. A chave de entrada para cada um desses filtros é uma obra de arte, de Caravaggio, Campin e Aleijadinho ou de artistas mais recentes como Picasso, Michtell (que está em Parade na Oca), ou Mariana Gartner, entre outros.
Como é uma experiência humana, a experiência da obra de arte pode ser compreendida, mas pode permanecer um pouco além das possibilidades de nossos esforços. Como um álibi, esta constatação de Manguel nos instiga para ir além de nossos próprios limites, no mergulho doce e consciente no universo da arte.


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