BUSCA:



Histórico
Equipe
Público atendido





São Paulo
Bauru
 






  Sobre cigarras e formigas

Mirian Celeste Martins

As obras de arte, como as palavras, estão literalmente grávidas de significado.
Dewey

Início ou reinício...

Mesmo que nunca abandonemos a nossa atitude educadora incorporada à nossa pele, é com a volta às aulas, que questões ficam girando...

Olho para os meus alunos (ou para meus professores, se tenho um cargo de coordenação/direção) como velhos conhecidos? Ou visto um olhar de estranhamento para que possa investigar se as férias trouxeram outras oportunidades de estarem presentes no mundo? Por onde terão andado? O que terão visto, ouvido, assistido, vivido?
Olho para os conteúdos planejados e me pergunto como vou introduzi-los? Uso as estratégias do "livro" ou aquelas já utilizadas em minha prática ou permito que um "estado de dúvida" me inquiete, me tire o sono, me deixe sem saber exatamente como vou aquecê-los para o trabalho?

Olho para mim mesma e me pergunto o que ainda desejaria saber sobre os conteúdos que serão trabalhados ou como transpô-los didaticamente para a sala de aula? Coloco em mim um olhar de cientista que indaga os "porquês"? Contextualizo esses conhecimentos como "patrimônios da história do ser humano", buscando links com meu próprio conhecimento, com o que acontece no mundo de hoje?

Olho para os diferentes grupos com os quais compartilho o meu trabalho - meus alunos, meus colegas educadores, os funcionários da escola, os pais, e também os amigos ou assessores que compartilham a experiência de educar? Como vivo em grupo? Sei usufruir dos benefícios da troca, das discussões que problematizam? Sou generosa e compartilho o que ando pensando, as idéias que agora eu tenho? Ou quero provar primeiro para mostrar os resultados depois?

No cotidiano de nossa ação como educadores, talvez essas perguntas não sejam tão conscientes. Mas o modo com as respondemos se revela na maneira como enfrentamos cada dia. Somos formigas, cigarras ou cigarraformigas?

A leitura da imagem criada por Doré (1833-83) para ilustrar a fábula de Esopo (séc. V A.C.) recontada por La Fontaine (1821-95), é reveladora. Como a lição moral de Esopo: "os preguiçosos colhem o que merecem" foi interpretada por Doré? Como você interpreta a imagem?

(Pausa para a sua leitura da imagem)

Talvez tenha chamado sua atenção como Doré partiu para uma interpretação metafórica. Não é uma ilustração para crianças, com caricaturas simpáticas de formigas e cigarras. O que vemos na porta de uma casa, protegendo seu patrimônio é uma mulher-formiga - uma trabalhadora, envolta pelos seus filhotes, cuidando de seus afazeres. O labor diário está presente no tricô que faz, na tesoura amarrada ao seu avental, na vassoura encostada à porta, juntamente com o machado que corta a madeira para queimar no fogão. Tudo é índice de seu trabalho. Seu olhar é de desdém, contrastando com o olhar curioso das crianças dirigido para a mulher-cigarra. Esta bela mulher veste elegante capa preta, talvez escondendo um vestido mais exuberante. Segura um violão, instrumento de prazer, de encantamento.

Na década de 20, Emília, Narizinho e Pedrinho encontram-se com Esopo e La Fontaine e a travessa boneca de pano se junta com a cigarra para pregar uma peça na formiga. Assim, Monteiro Lobato coloca outra moral para a fábula: "os artistas - poetas, pintores, músicos - são as cigarras da humanidade".
Mais recentemente, João de Barro, o conhecido músico Braguinha, recria a fala da formiga que declara:

"_ Quem trabalha como nós,
dia e noite, noite e dia,
precisa de vez em quando
de quem lhe traga alegria.
Pode entrar, fique conosco.
E assim juntemos, amiga,
a cantiga da cigarra
ao trabalho da formiga!"

De maneiras diferentes essas imagens fizeram e fazem parte de nosso
imaginário, nutrindo conceitos e reforçando preconceitos. Há certamente um encantamento, de certa forma mágico, na ação do artista que a cigarra revela e que atinge também aquele que se torna disponível para penetrar no universo de uma experiência que envolve a arte. Encantamento que, muitas vezes, não deixa ver o imenso trabalho que integra o fazer do artista, impedindo-o de perceber o lado "formiga" presente na cigarra-artista.

O que seria possível aprender através do modo de ser/fazer do artista - um cigarraformiga? Talvez, como educadores, possamos exercitar o nosso lado cigarra, sendo também cigarraformigas, como os artistas. Assim, quem sabe, ganharemos mais tranqüilidade para viver o caos criador, para lidar com ansiedades, para aproveitar os momentos presentes.

As perguntas iniciais implicam respostas de formigas ou de cigarraformigas. Voltemos a elas neste início de semestre letivo e nos compreendamos enquanto seres que aprendem - com suas angústias, ansiedades, emperramentos e encantamentos; enquanto seres que criam - com seus processos de criação convivendo com o caos criador, com os acasos e com a vigília sensível; enquanto seres que ensinam - atentos ao outro, ao grupo, à mediação entre conteúdos da matéria e conteúdos dos sujeitos; e enquanto seres que vivem em grupo - numa sociedade pós-moderna, convivendo com o diferente, com outras culturas, com outros modos de perceber e pensar o mundo.

Como educadores-pesquisadores de nossa própria prática, articulando os saberes que queremos ensinar e a leitura do grupo para quem ensinamos, entremos todos no jogo da criação. Com o mesmo peso e a mesma inquietude sensível e investigativa do artista frente a uma tela em branco ou um bloco de pedra. E com a mesma paixão e ousadia...


reflexões que convidam a pensar conosco
as questões de educação e cultura
 


12. Diálogos Ressignificados
11. Diálogos Formadores
10. Diálogos Heterogêneos
Números Anteriores




 





ContentStuff.com Business Solutions
Copyright © 2004 - Espaço Pedagógico
Nossos telefones: Em São Paulo (11) 5506-5208 e em Bauru (14) 3223-4118