As obras de arte, como as palavras, estão literalmente
grávidas de significado.
Dewey
Início ou reinício...
Mesmo que nunca abandonemos a nossa atitude educadora incorporada à
nossa pele, é com a volta às aulas, que questões
ficam girando...
Olho para os meus alunos (ou para meus professores, se tenho um cargo
de coordenação/direção) como velhos conhecidos?
Ou visto um olhar de estranhamento para que possa investigar se as férias
trouxeram outras oportunidades de estarem presentes no mundo? Por onde
terão andado? O que terão visto, ouvido, assistido, vivido?
Olho para os conteúdos planejados e me pergunto como vou introduzi-los?
Uso as estratégias do "livro" ou aquelas já utilizadas
em minha prática ou permito que um "estado de dúvida"
me inquiete, me tire o sono, me deixe sem saber exatamente como vou aquecê-los
para o trabalho?
Olho para mim mesma e me pergunto o que ainda desejaria saber sobre os
conteúdos que serão trabalhados ou como transpô-los
didaticamente para a sala de aula? Coloco em mim um olhar de cientista
que indaga os "porquês"? Contextualizo esses conhecimentos
como "patrimônios da história do ser humano", buscando
links com meu próprio conhecimento, com o que acontece no mundo
de hoje?
Olho para os diferentes grupos com os quais compartilho o meu trabalho
- meus alunos, meus colegas educadores, os funcionários da escola,
os pais, e também os amigos ou assessores que compartilham a experiência
de educar? Como vivo em grupo? Sei usufruir dos benefícios da troca,
das discussões que problematizam? Sou generosa e compartilho o
que ando pensando, as idéias que agora eu tenho? Ou quero provar
primeiro para mostrar os resultados depois?
No cotidiano de nossa ação como educadores, talvez essas
perguntas não sejam tão conscientes. Mas o modo com as respondemos
se revela na maneira como enfrentamos cada dia. Somos formigas, cigarras
ou cigarraformigas?
A leitura da imagem criada por Doré (1833-83) para ilustrar a
fábula de Esopo (séc. V A.C.) recontada por La Fontaine
(1821-95), é reveladora. Como a lição moral de Esopo:
"os preguiçosos colhem o que merecem" foi interpretada
por Doré? Como você interpreta a imagem?
(Pausa para a sua leitura da imagem)
Talvez tenha chamado sua atenção como Doré partiu
para uma interpretação metafórica. Não é
uma ilustração para crianças, com caricaturas simpáticas
de formigas e cigarras. O que vemos na porta de uma casa, protegendo seu
patrimônio é uma mulher-formiga - uma trabalhadora, envolta
pelos seus filhotes, cuidando de seus afazeres. O labor diário
está presente no tricô que faz, na tesoura amarrada ao seu
avental, na vassoura encostada à porta, juntamente com o machado
que corta a madeira para queimar no fogão. Tudo é índice
de seu trabalho. Seu olhar é de desdém, contrastando com
o olhar curioso das crianças dirigido para a mulher-cigarra. Esta
bela mulher veste elegante capa preta, talvez escondendo um vestido mais
exuberante. Segura um violão, instrumento de prazer, de encantamento.
Na década de 20, Emília, Narizinho e Pedrinho encontram-se
com Esopo e La Fontaine e a travessa boneca de pano se junta com a cigarra
para pregar uma peça na formiga. Assim, Monteiro Lobato coloca
outra moral para a fábula: "os artistas - poetas, pintores,
músicos - são as cigarras da humanidade".
Mais recentemente, João de Barro, o conhecido músico Braguinha,
recria a fala da formiga que declara:
"_ Quem trabalha como nós,
dia e noite, noite e dia,
precisa de vez em quando
de quem lhe traga alegria.
Pode entrar, fique conosco.
E assim juntemos, amiga,
a cantiga da cigarra
ao trabalho da formiga!"
De maneiras diferentes essas imagens fizeram e fazem parte de nosso
imaginário, nutrindo conceitos e reforçando preconceitos.
Há certamente um encantamento, de certa forma mágico, na
ação do artista que a cigarra revela e que atinge também
aquele que se torna disponível para penetrar no universo de uma
experiência que envolve a arte. Encantamento que, muitas vezes,
não deixa ver o imenso trabalho que integra o fazer do artista,
impedindo-o de perceber o lado "formiga" presente na cigarra-artista.
O que seria possível aprender através do modo de ser/fazer
do artista - um cigarraformiga? Talvez, como educadores, possamos exercitar
o nosso lado cigarra, sendo também cigarraformigas, como os artistas.
Assim, quem sabe, ganharemos mais tranqüilidade para viver o caos
criador, para lidar com ansiedades, para aproveitar os momentos presentes.
As perguntas iniciais implicam respostas de formigas ou de cigarraformigas.
Voltemos a elas neste início de semestre letivo e nos compreendamos
enquanto seres que aprendem - com suas angústias, ansiedades, emperramentos
e encantamentos; enquanto seres que criam - com seus processos de criação
convivendo com o caos criador, com os acasos e com a vigília sensível;
enquanto seres que ensinam - atentos ao outro, ao grupo, à mediação
entre conteúdos da matéria e conteúdos dos sujeitos;
e enquanto seres que vivem em grupo - numa sociedade pós-moderna,
convivendo com o diferente, com outras culturas, com outros modos de perceber
e pensar o mundo.
Como educadores-pesquisadores de nossa própria prática,
articulando os saberes que queremos ensinar e a leitura do grupo para
quem ensinamos, entremos todos no jogo da criação. Com o
mesmo peso e a mesma inquietude sensível e investigativa do artista
frente a uma tela em branco ou um bloco de pedra. E com a mesma paixão
e ousadia...