Vive-se, hoje, um momento bastante diverso e não menos difícil.Não
há mais um porto seguro nem verdades que nos sustentem. O futuro
é incerto, e o presente se mostra, em função de todas
as mudanças e na velocidade em que se apresentam, quase invariavelmente,
como um grande desafio a ser enfrentado, para o qual nem sempre dispomos
dos recursos necessários.
Neste contexto, múltiplo, conflituoso e incerto, inscreve-se a
escola, e não são poucos os constrangimentos enfrentados
pelos educadores no cotidiano das instituições de ensino.
A realidade com a qual se defrontam os educadores se manifesta terrivelmente
adversa e contrária a tudo o que foi dito e ensinado na formação
inicial. Freqüente-mente, o educador se sente perdido e jogado à
própria sorte, tendo que encontrar, por sua conta e risco, as saídas
possíveis. O contato travado com a realidade produz a oferta de
outros modelos e abala crenças antes defendidas. No momento atual,
a realidade das práticas e do universo do ensino ganha matizes
inusitados.
Os educadores sentem-se traídos pela sorte e pelas promessas da
formação. O inconsciente coletivo da categoria ainda espera
por um aluno ideal, atencioso, estudioso, disposto a responder com presteza
às solicitações do professor e a comprometer-se integralmente
com os deveres, aos quais a condição discente o obriga.
Diante desse aluno, seria possível aos educadores verem cumprido,
a contento, o seu papel, este ainda não totalmente liberto do perfil
missionário de décadas atrás, por terem constituído
primeiro o bom aluno e, na seqüência, o bom cidadão,
correspondendo, através de sua atuação docente, aos
ideais redentores da escola.
Por outro lado, o lugar de autoridade inconteste, anteriormente ocupado
pelo educador e legitimado pela sociedade e pela família, se relacionava
não só ao domínio que este possuía sobre o
conhecimento, mas à situação diferenciada em que
se encontrava em relação ao aluno. Ele não era igual
ao aluno, em nada. Dele, diferenciava-se pela postura assumida, pelas
experiências acumuladas, pelo padrão e pela diversidade das
referências culturais com as quais chegava à sala de aula,
pela linguagem que utilizava, tanto quanto pelo conhecimento do qual era
portador.
Em função das muitas variáveis históricas
que pontuaram a trajetória da educação e, de roldão,
a de seus agentes, justificada, sobretudo, pelo processo de proletarização
crescente vivido pelo professor, a autoridade inconteste, também
simbólica, deixou de existir.
Sem a intenção de produzir indevidas generalizações
cremos que o professor hoje, em larga medida, confunde-se com o aluno
e compartilha com ele da mesma cultura disseminada em âmbito mundial:
a de massas. Possui os mesmos gostos e preferências e fala a mesma
linguagem de jargões, não necessariamente por gostar dela,
antes, talvez, por considerá-la instrumento de aproximação
com o grupo de alunos. Assiste aos mesmos programas de TV e aos mesmos
e poucos filmes, invariavelmente, aventuras hollywoodianas. Lê pouco,
quase nada, um ou outro best seller. São pouco freqüentes
suas idas a exposições e a museus e possui restrito repertório
musical. O modelo que deveria ser oferecido pelo educador, diferenciado
dos usuais, com os quais os alunos estão familiarizados e que já
não lhes ensinam mais nada, deixou de existir.
Desta feita, a barbárie, a "terrível sombra de nossa
existência", assim nomeada e descrita por Adorno, caracterizada
como o contrário da formação cultural, através
da banalização dos valores, da disseminação
dos tabus e preconceitos, e da opressão e desumanização
do homem, instala-se e atinge também o profissional da educação.
Combatê-la implica na "desbarbarização das pessoas",
e essa é uma tarefa a ser realizada pela escola e pelo conjunto
dos educadores, através da desconstrução dos estereótipos
que minam o cotidiano e do compromisso com a valorização
e ressignificação da cultura, a fim de que seja possível
revitalizar o espaço escolar.
Neste sentido, é tarefa da formação contínua
pensar a escola como instituição cultural e considerar o
currículo de formação do educador para além
dos limites da reflexão sobre estratégias didático
metodoló-gicas de aplicabilidade imediata no âmbito da sala
de aula.
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