Vivemos neste fim / início de novo milênio, sob o impacto
de modificações e rupturas nos paradigmas científicos,
éticos e culturais, produzidos ao longo do que se convencionou
chamar de modernidade.
Crise de identidade certamente. Certezas e verdades até então
inquestionáveis, são hoje relegadas ao campo das incertezas
e hipóteses.
A presumida solidez das diversas instituições sociais -
escola, família, igreja - e de seus agentes - professores, pais
e clérigos - pulveriza-se diante da vertiginosa e complexa rede
de produção e divulgação de conhecimentos,
que ao mesmo tempo que produz um imenso painel acerca do homem da cultura
e da natureza , torna tudo, rápidamente, obsoleto.
Resulta deste cenário móvel e trepidante, que a escola,
instituição social nascida dos ideais da modernidade, busca,
ela também, compreender seu papel e o dos profissionais que a constituem.
Tendo como pano de fundo os sobressaltos causados pela passagens dos paradigmas
modernos para as da pós-modernidade, Fátima Camargo investiga,
em sua dissertação de mestrado,"A formação
contínua e a prática do educador: a (re) criação
dos paradigmas produzidos no processo de aprendizagem em serviço",
defendida em abril de 2.000, na Faculdade de Educação Universidade
de São Paulo, as diversas maneiras com que educadores egressos
de cursos de formação continuada, se apropriam e transferem
à prática, os ensinamentos obtidos ao longo de um processo
de formação em serviço.
Amparada por amplo variado e consistente referencial teórico,
a autora investiga o trabalho de ex-alunos do curso de formação
do Espaço Pedagógico, instituição voltada
a formação de educadores onde atua, também, como
professora.
Ao analisar as representações discursivas de sua ex-alunas,
a autora localiza, com precisão e argúcia, os principais
dilemas daqueles que saem dos cursos de formação continuada:
a dificuldade de associação entre teoria e a prática,
a superação do empobrecido universo cultural ocupado pela
escola e seus educadores, que os impulsiona a uma ação ditada
pelos vícios da repetição do hábitus.
Neste estudo que alia densidade informativa a sensibilidade analítica,
somos convocados a pensar o trabalho dos educadores sem qualquer apelo
mitificador. Com muita firmeza e precisão, os educadores são
avaliados face às novas demandas sociais e suas responsabilidades
éticas e profissionais, sem a típica complacência
idealizante que, com freqüência, caracteriza as interpretações
acerca do papel dos educadores em nossa sociedade.
Em tempo: a autora é portadora de um texto que em nada lembra
os hemertismos típicos dos trabalhos acadêmicos que, não
raro, dificultam a leitura e o interesse de leitores menos familiarizados
com a estrutura das produções científicas.
Sua consulta será de grande valia a todos aqueles educadores que
desejem compreender sua prática de modo a melhor sintoniza-lá
com seu tempo e suas necessidades.