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  Representações, constituição da subjetividade e memórias

Juliana Davini

Segundo Hobsbawm18 temos 3 maneiras de usufruir do passado: buscar nele o modelo ideal, as glórias para o orgulho da nacionalidade ou para buscar elementos para problematizar o presente. É nesta terceira que me inspiro quando trabalho com o resgate das memórias e dos vínculos construídos na escola e no grupo familiar durante a infância: para melhor compreender as escolhas feitas, podendo assim recomeçar.

Temos sempre que nos haver com nossa história: se não falamos dela, ela se faz falar em nós, pois estamos, com certeza, traduzindo-a em ação, em posições corporais, de maneira muitas vezes inconsciente. Repetimos o mesmo: a mesma posição frente ao outro, em diferentes esferas de nossa vida, inclusive nas situações profissionais. Freud19, diz que a repetição é uma maneira de recordar. Repetimos em atos, o que não podemos lembrar, o que sinaliza para uma resistência, mas é a própria repetição que abre ao mesmo tempo a possibilidade para a recordação, que por sua vez, pode dissolver a resistência. Estranhar a repetição, estar atentos para ela, se interrogar sobre ela, nos faz nos aproximarmos dos seus sentidos, das representações em jogo. Esse movimento nos encaminha para a elaboração, que é o momento de reorganização das representações.

Em psicanálise é o conceito de fantasia que explica a posição subjetiva de um sujeito atrelado, de uma certa forma, ao seu objeto de desejo (e gozo). A fantasia é a repetição em atos do que não conseguimos lembrar.

Este trabalho de resgatar as memórias escolares dos educadores tem sido realizado desde os anos 80 pela educadora Madalena Freire que, ao resgatar no professor o aluno que foi, encontrou uma forma de luta contra a repetição de modelos recebidos. Trazer para a consciência fatos que na verdade resistimos em relembrar, é recuperar nossa história, nossas marcas, nosso percurso e desejo. Recuperar o passado é a chance de construir a diferença em direção ao presente e ao futuro.

Agreguei a este trabalho, minha preocupação com a investigação dos objetos de desejo em jogo na cena educativa, verificando que o cenário subjetivo é colorido com aspectos e personagens da vida profissional que, no caso da escola, são os colegas de trabalho, a autoridade, os educandos e suas famílias, o conhecimento.

A posição ocupada por nossos alunos no vínculo que estabelecem conosco também traduz claramente um passado. Temos os desafiadores e críticos, os passivos, os que nos idolatram, os queixosos e perseguidos, os ciumentos e possessivos, os que impõem seu pensar, os que competem e invejam, os que dependem e aguardam, entre outros. Dificilmente escapamos desses ingredientes, que são elementos que retornam dos vínculos parentais, de experiências vinculares anteriores, bem como de nosso passado histórico, dentro de um país autoritário que também ajudou a constituir tais características. Trabalhar em grupo é banhar-se destes conteúdos, é ver surgir também o nosso passado, na forma como reagimos e encaminhamos as questões profissionais. Muitas vezes num grupo, criticamos ou julgamos em silêncio o outro. Ou porque ele fez algo que consideramos errado, ou porque não fez algo que parecia óbvio. Em alguns momentos perdemos a paciência, nos consideramos melhores. Ouvir suas "humanidades" através da escuta de sua história de aluno, nos faz entender melhor sua posição no grupo e suas dificuldades como educador. Nossa arrogância vira compreensão, nossa impaciência vira movimento em busca de contribuir com o processo do outro.

Problematizar significa muitas vezes entrar em contato e o trabalho com as memórias nos permite recordar para elaborar, para tomar consciência das representações construídas, abrindo espaços para novas significações serem tecidas.

Neste tipo de abordagem podemos revisitar medos antigos, dores represadas, mostrar coisas que os olhos parecem não querer ou não poder ver. Poder expressar sentimentos, angústias e conflitos tem sido uma rica oportunidade de entrar em contato com conteúdos repletos de representações e emoções. Dividir traumas com o grupo mobiliza identificações, fortalece vínculos, opera saídas para situações de extrema solidão. Percebem que seus conflitos são comuns, pois outros passaram por situações semelhantes.

Com este trabalho aprendemos a refazer percursos, a nos conscientizar de que, embora guardadas, estas lembranças nos acompanham de perto e estão em nosso dia a dia, influenciando nossas reações e nosso comportamento, ficando claro que cada um tem a sua individualidade, pois relata de forma surpreendentemente diferente, suas emoções e pensamentos.

É refletindo que aprendemos e entendemos porque somos educadores e que educadores somos. A memória é o resgate da história individual, mas, retrata uma época: fazemos parte de uma história que construímos e nos constrói, ao mesmo tempo.

Resgatamos um arsenal de significados, sentimos medo e saudade, impacto e deslumbramento, aperto e luz, tudo volta a viver, mas agora com um olhar renovado.

Este olhar é ressignificado, pois, convoca a análise dos valores das escolas, de seu currículo, de seus princípios, de suas regras e punições, de seu jeito de avaliar, de premiar, de seu jeito de lidar com os afetos, com as famílias, com a sociabilidade. Nos colocam a repensar ,fortemente, a relação professor-aluno, a formação do segundo grau e das faculdades de pedagogia, a função da escola e seu papel em relação à continuidade dos valores das classes dominantes. Nos faz refletir sobre o que queremos deixar na memória dos nossos alunos e nos ajuda a pensar nas posições tomadas. Como disse uma das educadoras, que ao escutar as professoras decidindo sobre como premiar os bons alunos pode repensar estas ações à luz do que as mesmas, no passado, geraram nela e ser, portanto, contra tal atitude. Pensar no que não tivemos ou no que aconteceu de ruim, nos ajuda a buscar a construção de um modelo melhor para os nossos alunos. Nos impulsiona a melhorar. Perceber algumas vezes o passado se repetindo em ações, pode ser um bom momento para enfrentá-lo, limitá-lo, transformá-lo.

Quando trabalhamos com o resgate das memórias do educador, fazemos um convite implícito para que ele se reencontre com a criança que foi e, nesse movimento, aparece, muitas vezes, uma criança passiva, vítima de momentos difíceis vividos com seus pais e professores. Será que esquecemos que sempre reagimos às ações que recebemos dos outros? Que as nossas reações são escolhas que fazemos, algo como micro decisões? Esse aspecto tem fundamental importância, pois, rompe com uma visão, muitas vezes disseminada, de que a criança é vítima das ações dos adultos. Não podemos esquecer que sempre fazemos escolhas, pois, mesmo a criança pequena, tem seus recursos, não é tão incapaz, não é tudo culpa dos adultos que a educam. Isto seria um desserviço à criança, seria não reconhecer suas próprias atividades mentais.

Olhando a nossa infância percebemos a existência de angústias, de dor, revisitamos as dificuldades, o lado sombrio que existe em qualquer ser, mesmo sendo ele uma criança, às vezes tão pequena. A infância não é um período só cor de rosa, o trabalho interno que cada um tem que trilhar envolve tristeza, incompreensão, solidão, raiva, desejos destrutivos, choro. Quando crianças, temos que achar sentidos para muitas questões que geram muita ansiedade, como entender de onde viemos, para que estamos aqui, para onde vamos, a morte, o sexo, o que é ser menino ou menina, a maldade, a rejeição, o desejo, o limite, o amor... Enigmas. Enigmas que o aluno vive e, porque vive, o acompanham à escola. Enigmas que o educador, embora sem saber, carrega, ainda, em si.

Freud diz que o inconsciente é o infantil. O fato da infância, enquanto tempo externo, já ter passado para um adulto, não significa que enquanto tempo interno, tenha se extinguido. O infantil sobrevive em cada um e se mostra em cenas privilegiadas, nas quais os enigmas mostram a sua face. Quando o educador pode reencontrar o infantil em si, ele pode, ao mesmo tempo, olhar de um outro jeito para o infantil de seus alunos, carregado de fantasias e conflitos a serem equacionados. Freud20, chama a atenção para esse aspecto, dizendo que é preciso que os educadores compreendam a própria infância, para que possam ter a capacidade de lidar com a alma infantil.

Colocar tais temas em discussão com educadores é ousar dar alguns passos em direção ao que parece impossível: mostrar ao educador que a reconciliação com sua infância carrega possibilidades para melhorar a qualidade de sua tarefa educativa. É, ao mesmo tempo, uma aposta na potencialidade, dentro do processo de formação de educadores, de um trabalho que leve em conta a subjetividade do educador.

O fato da discussão sobre as memórias ser encaminhada no grupo oportuniza a descoberta do infantil, pois, sempre há um educador que consegue rememorar, pode esclarecer melhor de onde vem algumas das nossas dificuldades, hoje, bem como o porque de certas coisas terem acontecido em certa época em nossa existência.

Muitas vezes resistimos a olhar para o que foi ruim e deixamos este material engavetado, sem a chance de revisão. Olhar para ele é já um trabalho de mexer na sua representação, abrindo espaço para possibilidades de alteração de sentido. Momentos de reflexão: relembrar é mexer nos guardados.

Escutar os depoimentos dos colegas é outra experiência que nos marca, nos convoca a subjetividade, nos propõe reflexão. Poder relembrar detalhes de nossa experiência, faz as cenas esquecidas voltarem a comparecer. Nos faz enxergar situações de sala de aula hoje, que nos remetem ao passado, a história pessoal retorna e reagimos com algo de nosso passado.

Percebemos que as pessoas que somos hoje foram construídas por experiências passadas e algumas relações entre o hoje e o passado ficam mais claras. Isso nos faz resgatar as influências de cada vida escolar, no modelo de professora que somos hoje. Muito embora queiramos negar certos modelos, eles fazem parte de nós e aparecem quando temos algum conflito em sala de aula: nossa tendência é repetir modelos nesses momentos. Nos conscien-tizamos de algumas marcas que, inconscientemente, falam em nós.

Nos exercícios de relembrar professores marcantes ou mesmo matérias interessantes, podemos ver que apesar de termos tido tantos anos de escolarização, tantos professores e tantas matérias, lembramos de poucos professores e de alguns conteúdos transmitidos por eles. Por que será? Com certeza, poucos deixam marcas, será que é o esvaziamento de significados que nos faz ir esquecendo aos poucos? Ser lembrado envolve ter deixado marcas, ter ensinado sua matéria com paixão, criando um estilo próprio. Buscar em nossas histórias aqueles que deixaram marcas, nos faz enxergar a nossa posição de professor, entendendo melhor a relação educador/educando, e problematizar nosso ensinar. O que será que nossos alunos vão levar de nós? Como diz Madalena Freire, é no amor ou no ódio que aprendemos, nunca na indiferença.

O momento fundamental na formação permanente dos educadores, segundo Paulo Freire21, é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a prática do amanhã. Nesse movimento que começa com a conscientização, é que decido, rompo e opto.

Aprender, segundo Madalena Freire22, envolve um movimento de superação de modelos, recriando-os e construindo o jeito próprio de ser e de pensar. Superação, que começa pelo processo de imitação do educador que tivemos, segue em direção a repensá-lo, para depois, recriá-lo, promovendo escolhas, que nos fazem autores de nosso fazer pedagógico.

É refletindo que fazemos opções de trabalhar a serviço de uma concepção de educação que supere a concepção das gerações anteriores, tecendo desejos de uma modificação da escola, dando mais um passo em direção à tão desejada transformação.

Notas
18 HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das letras. 1998.
19 FREUD, SIGMUND. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago., 1990.v12.
20 FREUD, Sigmund. (1913). Múltiplo interesse da psicanálise. In: Obras Completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973.
21 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia.Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
22 FREIRE, Madalena (org.). Avaliação e planejamento : instrumentos metodológicos II. São Paulo:Espaço Pedagógico. 1997.


reflexões que convidam a pensar conosco
as questões de educação e cultura
 


12. Diálogos Ressignificados
11. Diálogos Formadores
10. Diálogos Heterogêneos
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